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“Origene” 05/08/2009

Posted by quotidiangirl in Uncategorized.
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Ela estava deitada, o corpo pequeno e fino encolhido por entre lençóis encardidos. A menina mantinha seus olhos fechados, mas as lágrimas escapavam por debaixo de suas pálpebras e, grossas, molhavam seu rosto pálido. Ela tentava sufocar os soluços. Aquilo era mais que dor, era a miséria de uma alma sozinha.

Pra dizer a verdade, ela queria sufocar muito mais que seus soluços. Queria impedir suas lembranças de aflorarem, sufocando a mágoa e a infelicidade que atormentavam seu coração. Apertou o travesseiro em seu peito, sentindo cada músculo de seu corpo se retesar com o movimento. Um arrepio subiu por sua espinha e começou a tremer descontroladamente. Um barulho lá fora e a porta estava sendo forçada. Abriu os olhos, o castanho pálido agora choroso. O medo era tudo que restara em sua mente.

A fechadura cedeu e ali, entrando no quarto, estava sua mãe. A mulher tinha os cabelos longos e escuros caindo ao redor de sua face de forma irregular, os olhos parecendo mais dementes que jamais tinham estado. Johanna se retraiu, tentando desaparecer na escuridão imunda do local. Aquilo só irritou Celine mais ainda.

A mãe avançou para ela, seu hálito putrido de alcool e limão atingindo a menina em uma baforada. A mulher segurou o braço da filha com força, balançando-a violentamente. O silêncio era denso no cômodo, momentaneamente cortado pelo pranto da garota, que, naquele momento, escorria livremente por seu rosto. Johanna jogou-se no chão, tentando se livrar do ataque da mãe. Sentindo-se ser puxada, Celine soltou-a.

A menina encarou sua pele, as marcas vermelhas se confundindo com o roxo de seus hematomas prévios. Em um ímpeto de temor, correu para a saída do quarto, chegando ao corredor. O local parecia ainda mais frio e sombrio do que o cômodo anterior. Ela tinha noção de cada centímetro de sua pele, o ar enregelado fazendo seu corpo formigar. Mas não desistiria, ainda tinha a vantagem dos sentidos de sua mãe estarem prejudicados pela bebida. Correu, lançando-se em cada porta que aparecia, tentando abri-las.

Estava tudo trancado, como sempre. Aquela era uma técnica que Celine havia desenvolvido para que a filha não pudesse roubar nada ou tentar fugir enquanto não estivesse em casa. Johanna se chocou contra a parede, mas sentiu-se cair para trás e percebeu que conseguira entrar no banheiro. Silenciosamente, agachou-se no chão de madeira áspera, os cabelos emoldurando seu rosto cadavérico. Ergueu seu olhar e fitou seu reflexo no espelho: a tez macilenta, os machucados mal-cicatrizados, os olhos febris. E, naquele instante, percebeu que aquela era uma imagem conhecida, a mesma imagem que via entrar em seu quarto todas as noites, que lhe maltratava e que chorava em seu ombro, desculpando-se por tudo que lhe havia feito. Ela havia se tornado seu maior pesadelo: sua mãe. Mas não havia tempo para pensar naquilo.

As tábuas do assoalho rangeram, enquanto Celine adentrava o banheiro. A filha soltou um grito assustado, mas não havia escapatória. A mulher segurou-a pelos cabelos e jogou-a na parede, batendo sua cabeça contra os ladrilhos inacabados. Então, não havia mais luz alguma. Afinal, não há como fugir de suas origens.

• Nada neste conto é real. Ele é, na realidade, um sonho que tive um tempo atrás.

Comentários»

1. Rapha - 05/08/2009

Medo. G.G


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